A importância de uma literatura afrocentrada

Precisamos olhar para as crianças como sujeitos de direitos e promotoras de
cultura e saberes. Quando as olharmos dessa forma, perceberemos que tudo o que
disponibilizamos para elas são relevantes em suas relações com o mundo. Precisamos,
também, assumir que a luta por igualdade racial e representatividade deve ser pensada
para a infância, a fim de que as crianças, como sujeitos culturais, possam desfrutar de
um amplo acervo que possibilite se verem representadas. Quero refletir que o acesso a
este material é, sim, extremamente benéfico e necessário para as crianças negras, mas
para vivermos em um mundo mais justo é igualmente necessário para as crianças
brancas, pois lhes educarão em direção à alteridade do outro, daquele que não é seu
espelho.
Como professora da educação infantil e fundamental, há 14 anos, observo a
importância de uma literatura afrocentrada que empodere as crianças negras, mas que
também contribua com as crianças brancas, as levando a perceberem esse outro como
um par, um igual em potencialidade. A literatura constrói o imaginário das crianças,
assim como outras artes e, portanto, precisa ser levado em consideração que tipo de
discurso está sendo adotado sobre as populações afrodiaspóricas ou sobre o continente
africano, seja ele textual ou imagético. Uma vez que essa narrativa for recebida pelas
crianças como verdadeira, passará a fazer parte da forma como ela se relaciona e
constrói vínculo com o que foi ofertado.
Tenho, por experiência, a seguinte observação: as crianças negras necessitam
desse lugar na literatura infantil, local esse em que elas sejam vozes potentes;
necessitam ser heróis e heroínas e protagonistas de suas histórias, tal qual as crianças
brancas o são, na maioria absoluta, do que é produzido. Ao se verem representadas em
uma história que dialoga com sua ancestralidade e elementos de sua cultura, a criança
construirá pertencimento com aquela narrativa. O oposto também pode ocorrer caso a
criança ou sua herança cultural nunca sejam representadas. Isso ocasiona a construção
de conceitos autodepreciativos, um exemplo é o não reconhecimento de si como bonita,
heroína e detentora de uma cultura. Todas essas questões são extremamente violentas
para o desenvolvimento da autoimagem de uma criança.
Quando lecionava em uma turma de crianças do primeiro ano, ao convidá-las
para nosso momento de leitura, eu abria o livro e dizia que era um portal, que seríamos
transportados para um mundo onde tudo é possível. As crianças amavam esse momento
e, ao longo do ano, isso ampliou e solidificou a relação delas com a literatura. Assim, eu
me importava em ter uma diversidade literária que comtemplasse todo aquele grupo.
Como educadora, desejo que todas as crianças se vejam nas histórias. Se como
mediadora do processo pedagógico eu não compreender que é preciso investir e ter
cuidado na escolha desse material, posso ler livros que desestimulem meninas a serem o
que quiserem ser, restringindo seu lugar de experiência humana baseado no seu gênero.
O mesmo pode ocorrer com as crianças negras se não houver um entendimento que a
literatura proposta não seja estereotipada ou estigmatizada.
Um livro em que a narrativa negra seja condicionada a um discurso racista pode
ser muito prejudicial para a criança negra, que se sentirá reduzida tal qual o
personagem. Contudo, esse tipo de narrativa não afeta apenas as crianças negras, mas
também as crianças brancas que não terão a possibilidade de humanizar e ver as belezas
múltiplas desse outro. Tia Anastácia, personagem da obra de Monteiro Lobato, é um
exemplo de personagem estereotipada, desconectada de sua herança cultural, que
apresenta o perfil servil e não desconstrói o lugar de submissão atribuído às pessoas
negras. É esse tipo de narrativa que precisamos romper.
A luta antirracista se faz em diversas frentes e todas as crianças têm o direito de
viver a experiência escolar em um ambiente que lhe possibilite o respeito e aceitação a
si e ao outro. Temos inúmeros escritores e escritoras, ilustradores e ilustradoras, negros
e brancos, que se dedicam em criar uma literatura representativa, algo fundamental para
a aprendizagem das crianças, mas sobretudo para a construção do autoamor para as
crianças negras. Como educadora, desejo, a cada dia, construir um ambiente de
aprendizagem em que as crianças reconheçam suas diferenças e isso seja a beleza delas,
as tornando únicas e maravilhosas!
Em minha experiência na Vivendo e Aprendendo, encontro espaço para essas
reflexões e ações pedagógicas, o que me motiva cada dia mais a amar esta escola e o
meu fazer pedagógico!


Adriana Pereira – Educadora do Fundamental Matutino