Letramento e Alfabetização: A busca pela construção de sentido

Texto por: Adriana Pereira (Ciclo 3 mat.), Rilda Gomes (Ciclo 3 vesp.) e Pablo Carneiro (Coord. Pedagógico)

Desde os primórdios da humanidade, é notado o desejo de se comunicar e retratar a forma de apreender o mundo, as pinturas rupestres e a escrita pictográfica trazem por meio da imagem esse “relato” da organização social daquele momento. Ambas não representam um código escrito, mas cumprem com o desejo humano de se comunicar. Os hieróglifos do Egito Antigo relatam a importância dada por aquela sociedade à vida após a morte e a necessidade de registrar seus ritos e, ainda hoje, desafiam estudiosos na busca de entendimento do seu significado. É um percurso de milhares de anos nessa procura de aperfeiçoamento da forma de se comunicar, temos hoje formas universais: os códigos escritos.

Quando observamos o desenvolvimento da escrita na criança, percebemos processos semelhantes ao percurso da humanidade, ou seja, desde o nascimento ela se comunica por meios de gestos, sons (balbucios), o olhar, fala e, posteriormente, pelo desenho. Rabiscos e garatujas vão se transformando em desenhos com formas menos abstratas. As crianças passam a ser capazes de reproduzir o mundo a sua volta e demonstrar sentimentos e interesses por meio de suas criações. A escrita surge mediante uma ampliação do desejo de se comunicar, por meio de um código convencional da sociedade, a qual está inserida.

As crianças da Vivendo estão incluídas numa sociedade letrada, com informações escritas em livros, gibis, jornais, revistas… Contudo, a escrita enquanto linguagem, não se dá sozinha, ela é repleta de significantes e significados, para que se compreendam desde sua função social, até a “rigidez” do código escrito. Isto é, há um percurso para que a escrita e a leitura sejam compreendidas como forma de se comunicar com o mundo.

No processo de letramento e alfabetização da Vivendo, há um olhar cuidadoso para o percurso cognitivo das crianças, que busca compreender as possibilidades de interação, criação, problematização e apropriação do mundo letrado. Por isso, nos Ciclos 1 e 2, a escrita do nome não propõe um modelo à ser reproduzido por elas, faz parte do processo de reconhecimento da identidade de cada uma delas. O nome, especialmente para as crianças pequenas, é um elemento que as levam a se diferenciarem do outro. Um exemplo é quando trazem novidades e as mostram na roda, usando seus nomes e não os pronomes possessivos: “Esse carro é do Caetano”, disse ele sobre seu objeto.

Uma celebração de qualquer educador e educadora no Ciclo 1 é ver as crianças começando a se chamar pelo nome, pois para nós isso é sinal de que a socialização entre elas está acontecendo, que a sala de aula é um espaço frutífero de construção de vínculos. As crianças presenciam constantemente seus/as educadores/as fazendo registros, convivem com a escrita cotidiana de seus nomes, em diversos suportes para artes, na escolha da culinária… E, por mais que ainda não associem inicialmente seu nome àquele código, o significado começa a ser atribuído.

Esse processo faz parte do letramento, a busca de construção de sentidos, criticidade e compreensão da função social da escrita. Por volta do Ciclo 3, as crianças descobrem que o sinal gráfico na escrita de seu nome não muda e são capazes de reconhecer esse registro. Elas mesmas começam a se interessar em reproduzir essa escrita, por ser uma marca identitária.

A perspectiva teórica da Psicogênese da Língua Escrita nos propõe uma investigação sobre o momento em que os educandos encontram-se em relação à escrita, para, a partir disso, propormos vivências e desafios de acordo com suas hipóteses, estimulando-os em sua investigação. Motivar a criança a ler o que escreveu, também a incentiva a pensar sobre sua escrita. Outra oportunidade interessante, é quando o educador indaga sobre como a criança identificou tal palavra, por exemplo: “Que nome é esse?” E mostra a ficha de nome escrito ALICE. A criança responde: “ALICE”. E o educador pergunta: “Porque você acha que é ALICE? A resposta da criança é: “Por que inicia com “A” e termina com “E”.

Isso mostra que a criança construiu uma hipótese sobre a constituição da escrita e a posição das letras em seu nome. Segundo Ana Teberosky e Isabel Solé, no texto “O Ensino e a Aprendizagem da Alfabetização: uma Perspectiva Psicológica (2002), as hipóteses sobre a linguagem escrita de crianças entre 3 a 5 anos fazem parte do processo de alfabetização inicial.

O acesso as letras se torna significativo quando relacionado às vivências e interesses das crianças, sendo apresentadas, respeitando o momento de cada criança, sua identidade e faixa etária, nunca desvinculada de sua função social: que é comunicar algo. Assim, a criança percebe que as letras são usadas para transmitir uma mensagem. Aos poucos, a medida que vão transitando por esse universo letrado, elas vão percebendo que existem “leis” que regem as convenções da escrita, propondo novos conflitos as suas hipóteses.

Por volta dos Ciclo 4 e 5, quando as crianças percebem a relação entre letra e som, e a compreensão da regra se amplia, é comum ouvirmos das crianças: “Não sei escrever!”, “Quero escrever do jeito certo.” Ou, “Não escrevi certo, como escrevo?” Nesse momento, é importante que estejamos ao lado das crianças, sensíveis às suas necessidades emocionais, sustentando os tênues limites de suas incertezas, impulsionando-as em suas hipóteses, desafiando novos saberes e valorizando suas conquistas. Menos preocupados com o código linguístico, mas com proporcionar uma atmosfera acolhedora e instigante, que convide as crianças a “viajarem” pelo vasto universo das expressões e representações. Na Vivendo e Aprendendo, buscamos valorizar as construções das crianças, dizendo que podem escrever do seu jeito. Tudo isso acontece para que sejam respeitadas e acolhidas em seus processos, mas sem deixar de estimular e buscar meios criativos de construir novas aprendizagens.

A descoberta da natureza fonológica do sistema linguístico, a relação fonema/grafema, impulsionam registros muito interessantes e cobertos da identidade de cada criança. Por exemplo: “EIT” (LEITE); “OAT” (TOMATE); “OTEA” (HORTELÃ); “AEIE” (ALECRIM); “OAGO” (MORANGO); “OO” (COPO).  Emília Ferreiro e Ana Teberosky classificam esse momento de hipótese silábica, na tentativa de atribuir valor sonoro a cada fonema pronunciado. Posteriormente, as crianças percebem que uma letra não é suficiente para reproduzir o som daquela sílaba e vão explorando novas percepções, consoantes e vogais, encontros consonantais, algumas regras ortográficas, pois sabem que as palavras nem sempre são escritas como soam.

Um caso interessante de uma criança de ciclo 5, foi com a escrita da palavra AÇAÍ, que ela escreveu com S, mas quando trouxe o alimento, viu na embalagem que estava escrito com Ç. A mesma perguntou por quê e começamos a apresentar algumas regras gramaticais e assim tornamos nossa sala de aula um ambiente alfabetizador e profundamente viabilizador de novos conhecimentos.

O papel do /a educador /a no processo de desenvolvimento das crianças, não apenas no letramento e alfabetização, é de quem investiga, investe, instiga, cria, apresenta, acolhe e avalia. Esse é um caminho cíclico, que tem em si uma postura ética e comprometida com a infância, desde os saberes simbólicos aos concretos, não atribuindo hierarquia entre eles. Assim, brincar de faz de conta e escrever um texto, devem ter o mesmo investimento e valor na infância.