Festa Junina 2018

Domingo, 17 de junho, ocorreu a aguardada festa junina da Vivendo e Aprendendo. A festa foi realizada no bucólico espaço da associação que, com seu amplo pátio arborizado, suas casinhas coloridas e a criativa decoração dos professores, se tornou um verdadeiro arraial.

Durante a festa, foram promovidas muitas brincadeiras típicas de festa junina, como a pescaria, a corrida de saco e jogos de arremesso. Mas o auge do evento deu-se com a apresentação do artista Edy Natureza que, em cima de pernas de pau e de fantasia, se transformou em um pica-pau gigante. As crianças foram à loucura, correndo pelo espaço da escola inteiro (umas atrás da ave, outras fugindo dela), com muitos risos e alegria, como em qualquer festa tem de ser.

Por fim, encerramos a festa com uma grande quadrilha, regada a muitas risadas e uma deliciosa fogueira em nosso jardim.

Texto e fotos por Paulo Frederico

 

 

 

Wilma Lino Dutra: A menina perdida que se encontrou e hoje ensina o que é o amor

Aos 47 anos, ela conta que aprender a ler foi uma de suas maiores emoções durante toda a sua vida: “Acho que por isso depois me tornei professora”, conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

De onde vinha o amor? Ela não sabia. E, de fato, ela demorou muito tempo para reconhecê-lo. Ainda pequena, se viu sozinha, encontrada nas ruas da Ceilândia, cidade do Distrito Federal, sem lembrar do próprio nome ou endereço, apenas o nome dos pais, Albertina e Pedro, na memória. Foi levada para um orfanato com sete anos e lá teve nome e data de nascimento inventados. Nascia ali, Wilma Lino Dutra, hoje com 47 anos. Uma mulher que passou por diversos processos até descobrir quem realmente era, mesmo que não soubesse, de fato, quem fora antes. E hoje, a professora de uma sala com paredes laranja, que sai da porta no fim do dia com sorriso largo no rosto, óculos de armação tie-dye azul, cabelos curtos claros, short jeans e regata, sabe, sim, amar.

Ela tem pouca memória de infância. Consegue lembrar da mãe, que tinha família grande, que um dos seus irmãos já tinha sumido, que chorava quando a mãe saía pra trabalhar, que tinha o apelido de Tuta do qual não gostava. Lembra também do orfanato, de brincar, de subir no abacateiro, de plantar morango, da escola e dos amigos. Aprendeu a ler com 11 anos e nunca esqueceu o momento em que conseguiu entender as palavras que via.

Wilma Lino Dutra é a 73ª entrevistada do projeto “Todo Dia Delas”, que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil. 

“Fiz a escola com muita dificuldade e tinha muita vergonha disso. Mas me lembro muito bem do dia em que consegui ler, uma das freiras que me ensinava chorou de emoção, me abraçou e me beijou, e me disse “Wilma, você aprendeu a ler”. Foi uma das cenas mais marcantes da minha vida, acho que por isso depois me tornei professora”.

Para encontrar seu caminho, no entanto, a jornada foi longa. Aos 12 anos foi “adotada” por uma família, como era muito comum na década de 70 no Brasil, ela foi para casa, na verdade, trabalhar. “Era aquela coisa, eu tinha estudo, tinha dentista uma vez por ano, ganhava presente, mas ela tinha filhas com idade próxima a minha e elas não faziam nada”. Mais tarde a filha da “mãe postiça” a levou pra casa pra cuidar do filho dela. Ela trabalhava como babá de dia, e estudava de noite. Quando completou 18 anos, uma senhora que sempre encontrava com ela no parquinho com as crianças lhe ofereceu um emprego para lavar, passar e cozinhar, mas desta vez ela teria um salário. Continuou a estudar, pensou em fazer pedagogia, mas acabou indo pra Contabilidade.

Aprender a ler e conhecer histórias de mulheres tão incríveis quanto ela mesma só fez Wilma crescer. Hoje, a menina é mulher. E professora.

Foi com outra família para Florianópolis, mas resolveu voltar para Brasília. Foi acolhida por uma amiga, que ela considera como irmã, da época do orfanato. Trabalhou com o que podia, em padarias e depois como vendedora. Até que a patroa a indicou para uma vaga para ser auxiliar de professora na escola da filha. “Ela dizia que eu tinha jeito com crianças e eu pensei: não sei nem ler direito, como vou ser professora? Quando cheguei lá eram seis vagas com 18 pessoas concorrendo. Eu achei que não ia conseguir, todo mundo de universidade e eu ainda falava errado! Mas passei pelo processo seletivo e nem acreditei quando fui selecionada. Chorei muito”.

Na escola cheia de casas coloridas, no centro de Brasília, quase ao lado da Esplanada dos Ministérios, ela cresceu, viveu e aprendeu. No início foi difícil, ela era tímida e tinha dúvidas se conseguiria. Com um modelo mais alternativo de educação, baseada no diálogo e na escuta das crianças, ela acabou por se descobrir.

“O início foi muito difícil, mas acho que sofri foi pra me auto-conhecer mesmo. Porque tudo que é seu sai no processo de se tornar professora. E na escola, as pessoas eram sinceras comigo, me diziam não é assim que faz, mas também me perguntavam o que eu achava. Então, a impressão que eu tive era que eu podia ser eu mesma. A Wilma brava, a Wilma cheia de coragem, que tinha ideias, que era criativa”.

Lá se vão duas décadas na mesma escola, a Vivendo e Aprendendo, reconhecida pelo MEC como modelo de educação inovadora, com alunos da educação infantil indo e vindo, e foi nessa convivência que Wilma descobriu o amor. “Nunca ninguém tinha dito que me amava ou sequer se gostava de mim e eu escutei isso a primeira vez na escola. Não me lembro sequer dos meus pais terem me dito isso. E quando ouvi pela primeira vez eu pensei: como as pessoas podem se amar? Como isso funciona? Mas eu aprendi o que era. Aprendi a me amar, aprendi a lutar pelo que eu queria, aprendi a ser mais forte e falar o que eu penso e e aceitar as pessoas do jeito que elas são. Isso sim é amor”, conta com lágrimas nos olhos.

Foi na escola no centro de Brasília que ela aprendeu a se identificar com ela mesma.

Foi nesse processo que ela conseguiu se olhar e se ver de uma forma mais gentil. Foi longo e dolorido para alguém que sempre ouvi tantas coisas ruins de si mesma, se ver no espelho com mais amor. “Eu cresci achando que eu era um pessoa feia, gorda, burra. E na escola eu comecei a escutar elogios, como você é bonita, forte e corajosa, coisas que eu sequer via em mim. Então eu comecei a me aceitar, a entender que sim sou bonita, que eu podia estudar e aprender, que eu era inteligente. Isso me ensinou a ser mulher e não ter vergonha de falar ou de vestir como eu que eu gosto”, diz a professora, que enquanto trabalhava fez o curso de pedagogia.

Foi na escola no centro de Brasília que ela aprendeu a se identificar com ela mesma, inclusive com o nome escolhido no antigo orfanato, que na verdade, era o da irmã que ela lembrava quando chegou lá. “Teve uma época que eu sentia muita falta da minha mãe e eu demorei a aceitar essa parte da minha história, da minha família. E hoje uma das coisas que eu mais gosto é quando eu escuto as crianças falarem meu nome, e elas dizem com calma… Wiillma. Porque quando a criança te reconhece pelo nome é uma das maiores demonstrações de carinho. Então, essa sou eu, esse é meu nome e tenho orgulho dele”.

Wilma segura em suas mãos o livro “Histórias e Ninar para Garotas Rebeldes”, que conta fábulas de mulheres incríveis para meninas.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini
Imagem: Tatiana Reis
Edição: Andréa Martinelli
Figurino: C&A
Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC
Matéria original: https://www.huffpostbrasil.com/2018/05/18/wilma-lino-dutra-a-menina-perdida-que-se-encontrou-e-hoje-ensina-o-significado-do-amor_a_23434627/

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo.
Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC

Chá de livros 2018

Nosso chá de livros aconteceu na tarde de sábado, 24 de março. Mas e o que é o Chá de livros? É um evento pedagógico da Vivendo realizado anualmente com o objetivo de valorizar a cultura literária infantil e fomentar o desejo e a curiosidade das crianças pela leitura. É um dia também de encontro entre as famílias e celebração da nossa associação com atividades, contação de histórias, teatro, restauração de livros, oficinas e quitutes deliciosos!

Nas semanas que antecedem o Chá, as turmas trabalham diferentes obras literárias, produzem decorações para o evento, separam os livros que precisam ser restaurados, refletem e dialogam sobre o cuidado com os nossos livros.

Para o Chá, os/as educadores/as vão a livrarias e fazem uma lista de títulos significativos para cada turma, pensando em temas importantes para o grupo, em diversidade de gênero, racial, de tipologia textual e que auxiliem nas investigações dos projetos.

Na edição de 2018, destacamos a produção literária produzida pelas escritoras e ilustradoras brasilieiras e no dia do c, tivemos uma programação cheia de atividades: espaços de contação de histórias, brincadeiras com fantoches, teatro de sombras, oficinas de restauração e dedicatória, dentre outros. Fotos por Juliana Caribé (mãe associada)

Festa da Cultura Popular 2017

Texto e fotos por Pedrinho Fonseca (pai associado da Vivendo e Aprendendo)

O lugar somos nós. Se lá não estamos, o lugar é imaginação. Nosso pensamento tentando habitar um espaço desconhecido com cores, árvores, bancos, brinquedos, um sol que se põe no horizonte. Mas quando lá estamos, o lugar passa a existir. E aí o pensamento, livre deste trabalho imaginativo, ocupa-se em pensar em como podemos ocupá-lo. Juntos, aquele lugar – que existe – e nós, nos tornamos um.

No sábado, dia 26 de agosto de 2017, a Vivendo e Aprendendo ocupou a Praça do Compromisso para celebrar a Festa da Cultura Popular – pensada, organizada e festejada por toda a comunidade da escola. A cultura popular, queiramos ou não, nos habita. Somos nós o lugar para que ela exista (e resista). E um inexiste sem o outro. Estamos tão ligados (nós na cultura e ela em nós) que toda vez que uma força obscura e temerosa quer nos enfraquecer, o que faz? Tenta apagar a nossa cultura, a nossa memória, a nossa existência.

Ocupar a praça, no sábado, foi transpor a imaginação, levar o pensamento para passear, junto com tantos outros pensamentos – similares, distintos, iguais, opostos. E do conjunto de encontro dos nossos pensamentos, na praça, ocupamo-nos de fazer existir e resistir a cultura popular. Uma festa se fez em nós.

 

 

 

 

Uma instituição transformadora

Matéria publicada por Leonardo Carneiro no Correio Braziliense em 25/04/2017
Fotos por: Pedrinho Fonseca
Link original da matéria: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/eu-estudante/ensino_educacaobasica/2017/04/25/ensino_educacaobasica_interna,591202/programa-global-reconhece-vivendo-e-aprendendo-como-escola-transformad.shtml

A Associação cooperativa de ensino agora integra uma rede global com mais de 270 escolas transformadoras em todos os continentes. No Brasil, ela se une a outras 17 escolas e é primeira de ensino infantil a ser reconhecida.

Leonardo Carneiro

A Associação Pró-Educação Vivendo e Aprendendo entrou, desde o início de abril, na lista de instituições de ensino reconhecidas pelo Programa Escolas Transformadoras. É o primeiro estabelecimento de ensino de Brasília a se juntar a outras 17 escolas no Brasil, incluído no programa que conecta mais de 270 colégios em todos os continentes. O programa é uma iniciativa em âmbito global da organização de inovação social Ashoka e, no Brasil, o programa é realizado em parceria com o Instituto Alana, ONG que atua em defesa da infância. O principal objetivo dessa conexão é guiar a comunidade educacional brasileira para um novo olhar sobre a educação e identificar experiências de escolas comprometidas em formar jovens transformadores.

Surgida como uma associação cooperativa privada de ensino, a Vivendo e Aprendendo é hoje referência no ensino infantil de Brasília, e a primeira de educação infantil a ser reconhecida como uma escola transformadora. A associação apresenta uma proposta pedagógica baseada no pressuposto de uma educação democrática, em que se valoriza o protagonismo de cada pessoa que faz parte do coletivo, incluindo alunos, pais e funcionários. Todos são essenciais nas decisões e na gestão da associação. A cooperativa de ensino olha para o desenvolvimento integral da criança. É o que explica o coordenador pedagógico Pablo Carneiro: “nossa associação não tem dono, todas as questões financeiras, estruturais etc. são feitas por todos os integrantes, desde o profissional da limpeza, até as próprias crianças e famílias. Nossa educação é voltada para o desenvolvimento do indivíduo como pessoa e todos têm voz nas questões que lhes rodeiam”.
Leonardo Carneiro

A instituição do DF, para ser selecionada, teve que ser avaliada segundo alguns critérios que a definam como um ambiente de transformação social. O currículo da instituição deve ser voltado para o desenvolvimento integral dos indivíduos, além de considerar a sustentabilidade e apresentar estratégias para a produção de conhecimento e cultura. O ambiente físico deve proporcionar a exploração e a convivência com as diferenças e as instituições devem estimular estratégias pedagógicas que reconheçam o estudante como protagonista da própria aprendizagem. Além disso, as ações devem envolver a comunidade.

A Vivendo e Aprendendo foi o primeiro colégio de ensino infantil a se enquadrar nessas características e lançou o reconhecimento de escolas dessa etapa da educação básica para o programa. O coordenador Pablo conta que ele e os demais coordenadores do instituto passaram por um processo de avaliação para serem aceitos no programa. “Nós passamos por várias etapas de seleção. Uma delas foi um encontro e troca de experiências com uma escola comunitária do interior da Paraíba e uma escola pública de Manaus. A última etapa foi um painel de entrevistas. Fomos entrevistados por vários especialistas em educação”, conta.

Leonardo Carneiro

Um dos maiores diferenciais da Vivendo e Aprendendo, segundo colaboradores, é a resposta das crianças ao método de educação aplicado. “Às vezes, tenho que brigar com as minhas filhas porque elas não querem sair da escola. Isso é um valor porque os alunos se sentem felizes”, ressalta o arquiteto Fábio Rolin, 43 anos, pai das alunas Bruna e Marina. Esse diferencial tem reflexos também na vida pessoal das crianças, que se sentem mais conscientes de si e do mundo que as envolvem. A servidora pública Ana Vitória Piaggio, 38, mãe de Elis, reforça a afirmação: “a proposta é a criança se conhecer, olhar para dentro, e também olhar para o outro.” De acordo com a mãe, “O objetivo é formar pessoas preocupadas em transformar o mundo com a liberdade de serem quem elas realmente são. Como consequência, essa transformação atinge também as famílias. Aprendemos muito”, diz.

A Associação Ashoka é uma organização social global, formada por mais de 3 mil empreendedores sociais em 84 países. Fundada em 1981, tem o objetivo de colaborar com a construção de um mundo em que todos são agentes transformadores. A ideia é formar uma sociedade em que qualquer pessoa possa desenvolver e aplicar as habilidades necessárias para solucionar os principais problemas sociais que hoje enfrentamos.

Leonardo Carneiro

O programa Escolas Transformadoras funciona como uma rede de institutos de ensino, unidos pelo objetivo de se transformarem para transformar, apesar dos desafios e dificuldades encontrados no caminho. Dificuldades essas que servem para impulsionar a mudança da escola na sociedade e no mundo. O programa tem, ao total, 18 centros de ensino reconhecidas no Brasil que vão, coletivamente, se engajando para provocar transformações sociais mais sistêmicas. As instituições não recebem recursos diretamente, porém são feitos investimento indiretos para oferecer oportunidades de conexão a elas e dar a elas condições de espalhar esse conhecimento pelas comunidades.

Nesse caminho, os colégios são conectadas à rede e têm contato com especialistas do setor de educação, com empreendedores sociais e interagem entre si. Além de participarem de rodas públicas de debate, de conversas e outras formas de comunicação. A assessora pedagógica do Instituto Alana, Raquel Franzim, conta que “o instituto defende a escola como um espaço de transformação e liberdade, como está previsto na Constituição.” Ela aponta que, apesar das críticas, “Nós, com a Ashoka, compramos essa briga, pois não concordamos com esse entendimento conservador de que escola é um ambiente apartado da vida da criança e de que os pais são os únicos responsáveis pela educação delas”, afirma.

Em conjunto com outros pesquisadores, Raquel Franzim esteve na Vivendo e Aprendendo para observar a rotina da escola e verificar se ela se adequava aos parâmetros do programa. “A Vivendo e Aprendendo tem um perfil muito especial. Os educadores, por exemplo, são de formações muito diversas e não são somente professores ou pedagogos. Profissionais como cineastas, artistas, psicólogos e antropólogos, têm contribuições importantes para oferecer à formação das crianças”, relata a assessora do instituto Alana.

É dia de feira

Postado em 29/01/2017 no Correio Brasiliense – Por Gláucia Chaves

O pequeno agricultor cultiva sua produção respeitando o tempo que o alimento precisa para amadurecer. O escoamento dos produtos é feito de forma muito mais modesta que os grandes planos logísticos adotados por grandes redes de varejo: muitas vezes, as verduras, frutas e legumes são levados às feiras e restaurantes pelos próprios agricultores. Como os alimentos não têm nenhuma química, duram o tempo que têm que durar, ou seja, não aguentam longos períodos de viagem ou muito tempo parados nas prateleiras. Tudo isso dificulta a vida do agricultor familiar, como explica Renê Birochi, um dos coordenadores da Arca do Gosto: “É preciso garantir que sejam construídos canais sustentáveis para que o agricultor familiar consiga estimar quanto vai produzir e quanto disso será vendido”.

O agricultor familiar precisa estimar um preço justo, suficiente para sustentá-lo até a próxima safra. Atualmente, ainda de acordo com Birochi, o que acaba acontecendo é que as grandes redes de varejo abocanham quase todo o mercado de alimentos. Por isso, o projeto exalta a criação de espaços próprios para a venda de orgânicos, em extinção ou não. Mas e as feirinhas orgânicas, que hoje brotam mais que chuchu na cerca? “Hoje em dia, o mercado de orgânicos está em franco crescimento, mas está reproduzindo a mesma lógica de concentração de poder econômico para grandes varejistas”, analisa Renê Birochi. “Continua a mesma relação assimétrica de desequilíbrio em relação ao agricultor familiar. Não adianta ter um produto livre de agrotóxicos, mas que continua remunerando mal o agricultor.”

Nesse sentido, as CSAs (comunidades que sustentam o agricultor) são muito importantes. A ideia delas é estabelecer uma relação de confiança entre os agricultores e os coagricultores, termo usado para definir quem faz parte da iniciativa. Funciona assim: o agricultor apresenta todas as informações sobre seus custos de produção. O valor é dividido em cotas mensais, pagas pelos coagricultores, que passam a ser financiadores daquele agricultor. Em troca, os participantes recebem uma cesta com os itens produzidos. Assim, tudo o que for colhido já estará pago e vendido, descartando a necessidade de atravessadores.

Daniela Ângelo Miranda, 42 anos, é uma das organizadoras da CSA que funciona em uma escola da Asa Norte.

Daniela Ângelo Miranda, 42 anos, é uma das organizadoras da CSA que funciona em uma escola da Asa Norte.

Daniela Ângelo Miranda, 42 anos, é uma das organizadoras da CSA que funciona em uma escola da Asa Norte. A psicóloga revela que a iniciativa conta com mais de 20 coagricultores. Além de ajudar a financiar a produção de alimentos comprovadamente sem agrotóxicos, Daniela acredita que a CSA é uma maneira de sensibilizar as crianças para a questão ambiental. “Fazemos visitas aos locais de produção com as crianças, que têm a oportunidade de ver como é o plantio, colher e entender a sazonalidade dos alimentos”, descreve.

Para participar, é preciso ser indicado por um membro da CSA. O interessado assina um termo de compromisso e recebe uma cesta semanal, com dez a 12 itens, entre folhagens, verduras, legumes e frutas. “O legal é que você começa a consumir alimentos que antes não conhecia”, completa. Daniela diz que começou a se aprofundar no assunto com o objetivo de esclarecer as filhas, de 4 e 8 anos de idade. Informar-se sobre a origem do alimento, o valor do orgânico e entender sobre economia circular e colaborativa foram os passos seguintes. “Na nossa comunidade, além de nos preocuparmos em saber que os agricultores estão bem para fornecer um alimento bom, também ficamos preocupados com as trocas”, comenta. As trocas funcionam entre os membros de maneira simples: se há algo sobrando na sua cesta e faltando na do outro, os participantes fazem o escambo.

A interação entre os coagricultores e agricultores é outra vantagem do processo. Todos se chamam de família. “Esse movimento social colaborativo integra as pessoas. Isso foi o que me encantou desde o começo”, descreve Daniela. “A preocupação começa dentro de casa, mas quando você vê o alcance disso, acha que o seu é muito pouco. Sua vida muda, porque você começa a se alimentar melhor, mas você passa a ver a vida dos seus amigos mudar, dos agricultores e também a do planeta.”

O músico Antoine Espagno, 57 anos, é um dos coagricultores da CSA. O interesse por produção de comida vem de anos, assim como a noção das vantagens dos circuitos curtos de produção e distribuição de alimentos. A taxa de R$ 298,08 também é satisfatória: antes, Antoine gastava cerca de R$ 400 por mês em alimentos orgânicos para ele, a esposa e a filha. “Se for comprar orgânicos no supermercado, você vai pagar mais que o dobro disso”, compara.
O músico Antoine Espagno, 57 anos, é um dos coagricultores da CSA

O músico Antoine Espagno, 57 anos, é um dos coagricultores da CSA

Além da distância física entre agricultores e consumidores, Antoine ressalta que o CSA ajudou a diminuir a distância emocional entre as pessoas. “Conheci os agricultores, fui à casa deles, conheci o processo inteiro”, comenta. Mas é preciso ter em mente que a natureza tem seu próprio tempo: a cesta só vem com o que está na época. Esse detalhe, contudo, não incomoda nem um pouco Antoine. “Tem períodos que não tem tomate, mas sei que eles virão em dois, três meses. Acho que a pessoa tem que se virar para comer bem e o melhor jeito é esse, não tenho dúvidas.”