DIÁRIO DE BORDO: algumas reflexões no oceano da educação

Texto por: Maria Alexandra Militão Rodrigues

O diário de bordo ou “diário de itinerância”, como foi denominado pelo pesquisador francês René Barbier (2007), é compreendido por este autor como um registro da experiência vivida no decurso de um processo de pesquisa-ação. Entretanto, em contextos educativos, em particular nos processos de estágio, o diário de bordo tem sido usado como instrumento de registro reflexivo da experiência pedagógica, e, nesse âmbito, amplamente utilizado na formação de pedagogos. Também muitos professores, cientes da necessidade de registros para refletirem acerca de sua ação educativa, e até mesmo para elaborarem seus relatórios individuais ou grupais, têm usado o diário de bordo como instrumento pedagógico, das mais diversas maneiras.

Diário de bordo é uma expressão originalmente usada nas navegações portuguesas, um registro das condições de viagem feito pelos pilotos das naus e caravelas, uma memória da viagem, com suas imprecisões, descobertas, condições atmosféricas e marítimas. Creio que, no século XXI, o diário de bordo possa ser o registro de aventuras pedagógicas vivenciadas no coletivo de uma sala de aula, de uma escola, de uma comunidade de aprendizagem, com seus navegantes, por vezes em mares revoltos; mas também o registro da viagem do educador a bordo de si mesmo.

Esse diário, segundo Barbier (2007), pode conter referências a impressões, acontecimentos, observações, ações, reflexões, desejos, leituras, escuta do outro, lembranças, emoções, etc. É, portanto, uma escrita mais livre que assume inicialmente a forma de um “diário-rascunho” e se torna progressivamente mais elaborado, até se tornar publicável.

Diante de tantas demandas formais nos contextos educativos, provavelmente algumas professoras sentirão falta (ou, talvez, algum estranhamento) diante da possibilidade de um registro mais livre, sem amarras, marcado por subjetividades que dialogam com objetividades, sem preocupação com o olhar do outro; mas que, por outro lado, possa ser útil para a escrita de seus relatórios, ao final do bimestre ou semestre letivo.

Observo que tais registros, se realizados no dia a dia da prática profissional dos educadores, podem contribuir largamente para a sua formação como professores reflexivos, pesquisadores da sua prática, mais conscientes e críticos com relação aos caminhos pedagógicos trilhados.  

Tal trabalho de registro reflexivo pode ser realizado quando e onde a educadora se sentir mais disponível e confortável para escrever. Sua extensão não me parece relevante, uma vez que pequenos apontamentos significativos podem ser mais importantes do que uma página escrita para cumprir um ritual avaliativo. Talvez essa escrita breve possa se ampliar progressivamente, na medida em que a educadora vai compreendendo o valor de uma escrita para si própria, ao mesmo tempo pessoal e profissional, ao assumir a autoria de linhas que aproximam a profissionalidade da sua pessoalidade, mesclando cognições e emoções, dando sentido ao vivido no cotidiano com as crianças.

Mas, afinal, o que é, ou pode ser, a escrita de um diário de bordo? Escrever um diário de bordo implica em revisitar o vivido. É um espaço de expressão em que a professora se distancia um pouco, temporal e espacialmente, da sua experiência (ainda que esse distanciamento seja o final do dia, mas já um pouco longe do calor da ação). Permite uma reaproximação do que foi vivido na sala de aula ou fora dela, uma releitura dos acontecimentos, intenções e ações desenvolvidas. Nesse sentido, o educador pode rever-se, rever as crianças, revisitar episódios críticos, situações que demandam sua atenção; refletir e problematizar o processo pedagógico vivenciado com o grupo, revisitar singularidades das crianças; aprimorar os projetos pedagógicos, os roteiros de estudo.

O que observei na minha turma? O que experimentamos como grupo? Será que escutei meus alunos? O que eles sugeriram? Deixei-me provocar por suas curiosidades? O que penso dos temas que emergiram, e como eles “conversam” com os conteúdos programáticos? Os projetos desenvolvidos, individual e coletivamente, resultaram de fato de uma escuta sensível das necessidades e dos interesses expressos pelas crianças?

Tenho clareza da minha intencionalidade pedagógica? O que aconteceu inesperadamente e mobilizou a atenção na sala de aula ou fora dela? Como me senti? Como reagi? Como as crianças se envolveram com uma atividade proposta? Como um conflito foi desencadeado e mediado? De que elementos necessito para lidar com determinado desafio pedagógico? Com quem posso conversar? Existe um suporte teórico para subsidiar minha ação educativa?

No decorrer do dia são tantas as micro decisões que um professor precisa tomar, quase sem tempo para pensar, que o diário de bordo representa talvez a grande possibilidade de   estar a sós consigo mesmo para pensar o processo educativo e nele se rever. Como afirma Perrenoud (1993), os professores oscilam entre a rotina e a improvisação, considerando esta última como um gesto educativo que depende da sua bagagem, assim como de suas características pessoais e subjetivas. Essa dimensão, assim como a bagagem de conhecimentos do educador, poderá ser largamente trabalhada a partir do diário de bordo.

O processo de ressignificação do vivido, a criação e recriação de sentidos subjetivos (GONZÁLEZ REY, 2003) para o cotidiano pedagógico; a reflexão sobre o que escapa, mas de repente se configura como relevante na memória do professor; a compreensão de que é necessária uma escuta mais profunda da criança ou da família, ou uma conversa que não deve mais ser adiada com a coordenação pedagógica; a súbita compreensão daquela “pobreza rica” das crianças de camadas desfavorecidas, como reconhecia Ivonilde Morrone, extraordinária professora da escola pública nos primórdios de Brasília (RODRIGUES, 2018); a compreensão do valor da brincadeira livre; o emergir de novas ideias e estratégias pedagógicas, mais criativas e lúdicas; estas são, enfim, algumas das dimensões que a escrita regular de um diário de bordo poderá certamente fertilizar.

Portanto, no diário de bordo cabem não apenas memórias do vivido, mas reflexões e indagações sobre esse vivido, pensado e sentido, que poderão ser melhor destrinchados. Creio, também, que a dimensão simbólico-emocional dos processos educativos possa ser reconhecida, assim como privilegiada, no diário de bordo.

Talvez o professor ou a professora se tornem mais conscientes das questões centrais da sua viagem pedagógica:  das inquietações e tempestades no mar da sua sala de aula; de correntes profundas que impedem a navegação calma; da necessidade de encontrar o curso a seguir; de mapas e bússolas de que precisa para desempenhar seu papel como educadora ou educador. Talvez o diário de bordo possa apontar a necessidade de um olhar mais fino, de uma sistematização mais cuidadosa, de uma escuta mais sensível, de uma problematização a ser compartilhada com colegas que vivem, em seu cotidiano, desafios e problemáticas com navegações semelhantes.

Afinal, como Fernando Pessoa poetou (e vou pedir emprestada a profundidade do título de seu poema), talvez um diário de bordo seja necessário porque “Navegar é preciso”, mas “Navegar não é preciso”.    

REFERÊNCIAS

BARBIER, René. A pesquisa-ação. São Paulo: Liber Livros, 2007.

GONZÁLEZ REY, Fernando. Sujeito e Subjetividade. São Paulo: Thomson Editora, 2003.

PERRENOUD, Philippe. Práticas pedagógicas, profissão docente e formação: perspectivas sociológicas. Lisboa: Dom Quixote, 1993.

RODRIGUES, Maria Alexandra Militão. Como Brasília aprendeu a ler e a escrever em seus primórdios: o protagonismo da professora Ivonilde Morrone. In PEREIRA, E.W.; COUTINHO, Laura.M.; RODRIGUES, M.A.M. (Orgs.). Anísio Teixeira e seu legado à educação do DF: história e memória. Brasília: Editora da Universidade de Brasília (EdUnB), 2018.

Contratação de Consultor temporário para o Ensino Fundamental (encerrado)

Caras/os amigas/os,

A Vivendo e Aprendendo abre o processo seletivo para Consultor/a temporário/a para o Ensino Fundamental. O prazo limite para apresentação dos currículos e carta de intenção vai até 15 de agosto de 2018.

Confiram o edital abaixo e pedimos que divulguem e indiquem a potenciais interessados. Aos que participarão da seleção, desejamos sorte.

Edital de consultor(a) pedagógico(a) para o Ensino Fundamental da Vivendo e Aprendendo

Ei! Você está aqui?

Texto por: Letícia (Ciclo 5 matutino.), Lulu (Ciclo 1 vespertino) e Natália (Ciclo 4 matutino).

Nesse momento, consegue sentir as batidas do seu coração? Ouvir a sua respiração? Qual foi a ultima vez que sentiu o chão com os seus pés? Que um pingo de chuva tocou o seu corpo? Corpo? É ele que nos permite brincar, descobrir, conhecer, estudar, trabalhar, se alimentar… Mas será que realmente estamos fazendo isso tudo? Nossa presença está sendo consciente ou estamos agindo mecanicamente?

Atualmente, recebemos informações e estímulos de inúmeras formas, num ciclo vicioso de muitas novidades e poucas reflexões. Prendemo-nos ao passado, planejamos e nos preocupamos com o futuro e muitas vezes não estamos aqui, agora. Essa presença ausente nos desconecta das belezas que existem diante de nós.

As crianças nos fazem viver essa beleza. A cada instante somos convidadas por elas a redescobrir o mundo. Num chamado constante de estarmos aqui, com uma presença integral. Olhar e verdadeiramente enxergar, tocar e conseguir sentir, escutar e inteiramente ouvir.

Somos como uma pipa que já está voando há muito tempo, que já ganhou corda demais e que conhece vários céus. Uma criança é um chamado a voltar. É ela que nos puxa de volta ao início e nos convida a recomeçar esse voo, a viver esse agora e a redescobrir o mundo.

Será que estamos conseguindo ouvir esse chamado das crianças? Será que estamos sensíveis a elas? Uma criança nasce para nos lembrar que o mundo está recomeçando a cada segundo, para convidar os seus familiares a olharem juntos cada grande novidade, para relembrar os seus educadores que nada é previsível, para nos convidar a (re)olhar e revisitar este mundo que, até então, pensávamos conhecer.

Festa Junina 2018

Domingo, 17 de junho, ocorreu a aguardada festa junina da Vivendo e Aprendendo. A festa foi realizada no bucólico espaço da associação que, com seu amplo pátio arborizado, suas casinhas coloridas e a criativa decoração dos professores, se tornou um verdadeiro arraial.

Durante a festa, foram promovidas muitas brincadeiras típicas de festa junina, como a pescaria, a corrida de saco e jogos de arremesso. Mas o auge do evento deu-se com a apresentação do artista Edy Natureza que, em cima de pernas de pau e de fantasia, se transformou em um pica-pau gigante. As crianças foram à loucura, correndo pelo espaço da escola inteiro (umas atrás da ave, outras fugindo dela), com muitos risos e alegria, como em qualquer festa tem de ser.

Por fim, encerramos a festa com uma grande quadrilha, regada a muitas risadas e uma deliciosa fogueira em nosso jardim.

Texto e fotos por Paulo Frederico

 

 

 

O embalo da rede: Quando começa o desenvolvimento da criança?

Texto por: Pablo Martins Carneiro, Diego Barrios e Marianna Mialski

No dia em que se soube, já estava a figurar nas remotas inscrições simbólicas daqueles que ouviram a notícia. Rita está grávida! Grávida, grávida… Ali, naquele momento, repleto do muito antes cultural e do tanto futuro desejoso, iniciou-se o desenvolvimento de uma criança.

A barriga, agora alvo dos olhares, sonhos, medos, projeções, desejos de união e solidão, se tornou linguagem comum a todos. E o estatuto de mãe obrigou Rita e se reinventar como tal. Foi duro, lindo, feio, maravilhoso, incandescente, real, simbólico e imaginário. Havia agora ela-mãe, ele-namorado-pai, mãe-avó, pai-avô, eu-mulher, eles-homens, barriga-bebê, tudo e todos ao mesmo tempo, bordando uma história de dentro para fora daquela barriga.

Sozinha no quarto, em frente ao espelho, ouvindo música, nas conversas com o namorado-pai, nos sermões da mãe-avó, no silêncio-barulhento do pai-avô, na leitura de livros infantis, Rita acolheu em si o quantum do desenvolvimento. E foi exatamente envolvida nessa colcha simbólica que nasceu Luísa. Esperada e falada por todos e todas, com sua história pré-contada.

Luísa existia onde não estava e estava onde não existia. E ali, aquele montinho de fome, sono e reflexos primordiais, foi acolhida pelo Outro primordial, que seguiria nutrindo-a das primeira marcas de humanidade. Rita, de olhos marejados de lágrimas, olhou para Luísa e viu que era recebida por um sorriso. Daquele dia em diante, capturado pela romântica semântica da linguagem de Rita, aquele esticar de músculo se tornou sorriso, sustentado pelo desejo da mãe e o amor da filha.

Assim, dia após dia, muitos assumiram a função de atribuir significado às expressões de Luísa, ao mesmo tempo que pressupunham e lançavam ao futuro seus desejos de desenvolvimento. Luísa, por sua vez, se fundia a uns, se diferenciava de outros e se descobria sujeito. Houve dor, houve presença, houve falta. Houve.

Quando uma criança nasce, ela presentifica um desejo anterior. As expectativas criadas a partir do filho imaginado começam a se tornar palpáveis e reais. A relação de Rita com Luísa foi iniciada nos primórdios de sua própria vida, em brincadeiras com bonecas e outros faz de contas. Tudo o que viveu até o momento do nascimento da sua pequena, carrega de significado as infinitas possibilidades desse encontro, tudo o que a relação pode estabelecer.

Para que uma criança se desenvolva, precisa estar enlaçada pelo desejo, pela suposição de sua capacidade, pelo lançamento de possibilidades de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, necessita de um Outro que reconheça e sustente suas conquistas, numa captura significante que atribui significado a elas. A aprendizagem reconhecida e valorizada pelo grande Outro, se posiciona numa rede significante e pulsional que a impulsiona e sustenta como parte do repertório simbólico da criança. Em contrapartida, o estímulo em direção a qualquer ensinamento por parte dos adultos, se dá pelo anseio de que a criança aprenda, derivado da pressuposição de que é capaz de aprendê-lo.

Na ausência de um Outro primordial que suponha e estimule o desenvolvimento e a constituição de um sujeito, nada encontra lugar para florescer. O desejo do Outro tem seu lugar em viabilizar o desenvolvimento. Para isso, é preciso que o outro esteja. Esteja presente. Esteja envolvido. Esteja disponível.

Em nossa inquietante conversa com a professora Zulema Garcia Yañes, fonoaudióloga, psicomotricista e Diretoria do Centro Lydia Coriat de Porto Alegre, pudemos discutir importantes implicações de tais conceitos psicanalíticos para o campo da Educação e, assim, pensar no delicado lugar do adulto nos processos de desenvolvimento infantil. Uma dessas implicações diz respeito à postura ética do educador diante da relação com a criança. Explicamos melhor.

Assim como a mãe e o pai, ou aqueles e aquelas que assumem tais funções, o educador convida a criança ao mundo, cria expectativas de seu aprendizado, supõe o que ela, enquanto alteridade, pode e deve saber. Por outro lado, desejamos, como educadores e educadora, que as crianças nos acompanhem em nossas viagens, que participem do mundo simbólico que criamos e trazemos para a sala de aula em nossas falas, intervenções, planejamentos e brincadeiras.

Portanto, a postura ética se observa uma vez que o educador acredita na criança, é capaz de fazer essa suposição sobre o desenvolvimento do seu aluno e assume uma postura desejante em relação a esse processo de desenvolvimento. Tal ímpeto atua como um abraço, um colo simbólico em que a criança encontra espaço para sua expressão autêntica.

Para concluir, trazemos uma frase colocada por Zulema que nos inspira a construir uma educação pautada na ética da relação com o outro. Diz ela: Para que uma criança esteja atenta ao mundo, o adulto precisa estar atento a ela. Busquemos estar atentos às nossas crianças, praticando o respeito por sua originalidade e buscando criar as condições para que elas cresçam confiantes de ser quem são.

Edital para consultoria (encerrado)

Última atualização: RESULTADO PARCIAL NO LINK ABAIXO!

Resultado parcial do Edital da Vivendo e Aprendendo

Olá pessoal,

Edital para seleção de consultoria (pessoa física ou jurídica), na modalidade produto, para prestar serviços de moderação e mediação das atividades de elaboração e construção coletiva do Projeto Político Pedagógico da Vivendo e Aprendendo.

O prazo para inscrição inicia-se em 24 de maio de 2018 às 00h00 e se encerra em 11 de junho de 2018 às 0h00 (data de entrega atualizada). A documentação exigida deverá ser encaminhada ao e-mail diretoria@vivendoeaprendendo.org.br, com o assunto “Seleção para moderação e mediação da elaboração e construção coletiva do PPP e RE”.

Confiram o edital abaixo e pedimos que divulguem e indiquem a potenciais interessados. Aos que participarão da seleção, desejamos sorte.

Retificação do Edital de Consultoria na Vivendo e Aprendendo (14-05-2018)

Edital de Consultoria na Vivendo e Aprendendo

Wilma Lino Dutra: A menina perdida que se encontrou e hoje ensina o que é o amor

Aos 47 anos, ela conta que aprender a ler foi uma de suas maiores emoções durante toda a sua vida: “Acho que por isso depois me tornei professora”, conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

De onde vinha o amor? Ela não sabia. E, de fato, ela demorou muito tempo para reconhecê-lo. Ainda pequena, se viu sozinha, encontrada nas ruas da Ceilândia, cidade do Distrito Federal, sem lembrar do próprio nome ou endereço, apenas o nome dos pais, Albertina e Pedro, na memória. Foi levada para um orfanato com sete anos e lá teve nome e data de nascimento inventados. Nascia ali, Wilma Lino Dutra, hoje com 47 anos. Uma mulher que passou por diversos processos até descobrir quem realmente era, mesmo que não soubesse, de fato, quem fora antes. E hoje, a professora de uma sala com paredes laranja, que sai da porta no fim do dia com sorriso largo no rosto, óculos de armação tie-dye azul, cabelos curtos claros, short jeans e regata, sabe, sim, amar.

Ela tem pouca memória de infância. Consegue lembrar da mãe, que tinha família grande, que um dos seus irmãos já tinha sumido, que chorava quando a mãe saía pra trabalhar, que tinha o apelido de Tuta do qual não gostava. Lembra também do orfanato, de brincar, de subir no abacateiro, de plantar morango, da escola e dos amigos. Aprendeu a ler com 11 anos e nunca esqueceu o momento em que conseguiu entender as palavras que via.

Wilma Lino Dutra é a 73ª entrevistada do projeto “Todo Dia Delas”, que celebra 365 Mulheres no HuffPost Brasil. 

“Fiz a escola com muita dificuldade e tinha muita vergonha disso. Mas me lembro muito bem do dia em que consegui ler, uma das freiras que me ensinava chorou de emoção, me abraçou e me beijou, e me disse “Wilma, você aprendeu a ler”. Foi uma das cenas mais marcantes da minha vida, acho que por isso depois me tornei professora”.

Para encontrar seu caminho, no entanto, a jornada foi longa. Aos 12 anos foi “adotada” por uma família, como era muito comum na década de 70 no Brasil, ela foi para casa, na verdade, trabalhar. “Era aquela coisa, eu tinha estudo, tinha dentista uma vez por ano, ganhava presente, mas ela tinha filhas com idade próxima a minha e elas não faziam nada”. Mais tarde a filha da “mãe postiça” a levou pra casa pra cuidar do filho dela. Ela trabalhava como babá de dia, e estudava de noite. Quando completou 18 anos, uma senhora que sempre encontrava com ela no parquinho com as crianças lhe ofereceu um emprego para lavar, passar e cozinhar, mas desta vez ela teria um salário. Continuou a estudar, pensou em fazer pedagogia, mas acabou indo pra Contabilidade.

Aprender a ler e conhecer histórias de mulheres tão incríveis quanto ela mesma só fez Wilma crescer. Hoje, a menina é mulher. E professora.

Foi com outra família para Florianópolis, mas resolveu voltar para Brasília. Foi acolhida por uma amiga, que ela considera como irmã, da época do orfanato. Trabalhou com o que podia, em padarias e depois como vendedora. Até que a patroa a indicou para uma vaga para ser auxiliar de professora na escola da filha. “Ela dizia que eu tinha jeito com crianças e eu pensei: não sei nem ler direito, como vou ser professora? Quando cheguei lá eram seis vagas com 18 pessoas concorrendo. Eu achei que não ia conseguir, todo mundo de universidade e eu ainda falava errado! Mas passei pelo processo seletivo e nem acreditei quando fui selecionada. Chorei muito”.

Na escola cheia de casas coloridas, no centro de Brasília, quase ao lado da Esplanada dos Ministérios, ela cresceu, viveu e aprendeu. No início foi difícil, ela era tímida e tinha dúvidas se conseguiria. Com um modelo mais alternativo de educação, baseada no diálogo e na escuta das crianças, ela acabou por se descobrir.

“O início foi muito difícil, mas acho que sofri foi pra me auto-conhecer mesmo. Porque tudo que é seu sai no processo de se tornar professora. E na escola, as pessoas eram sinceras comigo, me diziam não é assim que faz, mas também me perguntavam o que eu achava. Então, a impressão que eu tive era que eu podia ser eu mesma. A Wilma brava, a Wilma cheia de coragem, que tinha ideias, que era criativa”.

Lá se vão duas décadas na mesma escola, a Vivendo e Aprendendo, reconhecida pelo MEC como modelo de educação inovadora, com alunos da educação infantil indo e vindo, e foi nessa convivência que Wilma descobriu o amor. “Nunca ninguém tinha dito que me amava ou sequer se gostava de mim e eu escutei isso a primeira vez na escola. Não me lembro sequer dos meus pais terem me dito isso. E quando ouvi pela primeira vez eu pensei: como as pessoas podem se amar? Como isso funciona? Mas eu aprendi o que era. Aprendi a me amar, aprendi a lutar pelo que eu queria, aprendi a ser mais forte e falar o que eu penso e e aceitar as pessoas do jeito que elas são. Isso sim é amor”, conta com lágrimas nos olhos.

Foi na escola no centro de Brasília que ela aprendeu a se identificar com ela mesma.

Foi nesse processo que ela conseguiu se olhar e se ver de uma forma mais gentil. Foi longo e dolorido para alguém que sempre ouvi tantas coisas ruins de si mesma, se ver no espelho com mais amor. “Eu cresci achando que eu era um pessoa feia, gorda, burra. E na escola eu comecei a escutar elogios, como você é bonita, forte e corajosa, coisas que eu sequer via em mim. Então eu comecei a me aceitar, a entender que sim sou bonita, que eu podia estudar e aprender, que eu era inteligente. Isso me ensinou a ser mulher e não ter vergonha de falar ou de vestir como eu que eu gosto”, diz a professora, que enquanto trabalhava fez o curso de pedagogia.

Foi na escola no centro de Brasília que ela aprendeu a se identificar com ela mesma, inclusive com o nome escolhido no antigo orfanato, que na verdade, era o da irmã que ela lembrava quando chegou lá. “Teve uma época que eu sentia muita falta da minha mãe e eu demorei a aceitar essa parte da minha história, da minha família. E hoje uma das coisas que eu mais gosto é quando eu escuto as crianças falarem meu nome, e elas dizem com calma… Wiillma. Porque quando a criança te reconhece pelo nome é uma das maiores demonstrações de carinho. Então, essa sou eu, esse é meu nome e tenho orgulho dele”.

Wilma segura em suas mãos o livro “Histórias e Ninar para Garotas Rebeldes”, que conta fábulas de mulheres incríveis para meninas.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Tatiana Sabadini
Imagem: Tatiana Reis
Edição: Andréa Martinelli
Figurino: C&A
Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC
Matéria original: https://www.huffpostbrasil.com/2018/05/18/wilma-lino-dutra-a-menina-perdida-que-se-encontrou-e-hoje-ensina-o-significado-do-amor_a_23434627/

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo.
Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC