Manifesto da Associação Pró-Educação Vivendo e Aprendendo

Brasília, 25 de outubro de 2018

Manifesto da Associação Pró-Educação Vivendo e Aprendendo sobre as eleições presidenciais de 2018

“Longe se vai sonhando demais” 

Vivendo e Aprendendo surgiu de um sonho. Um grupo de pais e educadores, que em 1982, resolveu criar uma associação educativa para proporcionar às crianças pequenas uma educação diferente. Baseada no brincar, na curiosidade infantil, na aprendizagem construída coletivamente, a escola, desde então, se reconstrói a cada dia, sempre pautada pelo diálogo, pelo afeto, pelo respeito às diferenças e ao outro, pela vivência democrática. Aqui nos olhamos nos olhos, nos abraçamos, rolamos no chão com nossas crianças, proporcionamos experiências, construímos combinados, definimos limites, promovemos reflexões. E é a partir dessa experiência de 36 anos de diálogo, de brincadeiras, de alegria e de formação de cidadãos que nos posicionamos agora, pois entendemos que a educação é mais ampla que a própria escola.

Por acreditar no diálogo democrático e respeitoso com qualquer pessoa, decidimos em Assembleia Geral Extraordinária nos manifestar em relação ao momento que estamos vivendo no Brasil. O que está em jogo são dois projetos de país, de sociedade e de nação diametralmente opostos.

De um lado temos um professor que valoriza a infância, o afeto, o respeito às diferenças e às opiniões divergentes, a solidariedade, a defesa dos direitos fundamentais das minorias frente a maiorias, a convivência fraterna, a diversidade de formas de viver e de estar no mundo.

Do outro lado encontramos propostas que incluem a omissão do Estado com o cuidado de crianças pequenas, a educação baseada em obediência e hierarquias de viés autoritário, a aniquilação do respeito à pluralidade das diferenças em prol de um pensamento único e de uma única forma de viver, disfarçada sob o véu da neutralidade ideológica, a privatização do ensino público, a desigualdade entre homens e mulheres no mundo do trabalho e no espaço doméstico e a incitação à violência e ao ódio.

No campo específico da educação, o candidato Bolsonaro defende que o ensino fundamental seja realizado à distância, desconhecendo a importância do encontro com o outro, a riqueza da sociabilidade e o papel de educadores/educadoras no processo educativo/formador, sem contar as consequências concretas para as famílias. Além disso, “expurgar a ideologia de Paulo Freire” (p.46 do Plano de Governo) é exaltar a opressão e o “eu-ensino-você-aprende”, negar a potencialidade do aluno como educador.

Independente dos motivos que nos levaram até o presente momento, é aqui que estamos e daqui precisamos seguir. Nada temos a temer ao abraçar o que acreditamos! Nossos valores nos fazem contrários a toda forma de discriminação e negação do outro: machismo, racismo, homofobia, LGBTfobia, exclusão de deficientes, violência. Nos posicionamos, pois, da seguinte forma:

Democracia ao invés de autoritarismo
Diálogo ao invés de obediência
Empatia e afeto ao invés de ódio
Amizade ao invés de ataque ao diferente
Diálogo ao invés de ordens
Aprender brincando ao invés de uma educação conteudista e hierarquizada

É por tudo isso que, enquanto associação educativa, nesse momento optamos por nos posicionar publicamente em apoio à candidatura que melhor representa o país que queremos construir com e para nossas crianças, e com clareza e esperança indicamos o voto no PROFESSOR FERNANDO HADDAD.

Associação Pró-Educação Vivendo e Aprendendo

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.” Paulo Freire

DIÁRIO DE BORDO: algumas reflexões no oceano da educação

Texto por: Maria Alexandra Militão Rodrigues

O diário de bordo ou “diário de itinerância”, como foi denominado pelo pesquisador francês René Barbier (2007), é compreendido por este autor como um registro da experiência vivida no decurso de um processo de pesquisa-ação. Entretanto, em contextos educativos, em particular nos processos de estágio, o diário de bordo tem sido usado como instrumento de registro reflexivo da experiência pedagógica, e, nesse âmbito, amplamente utilizado na formação de pedagogos. Também muitos professores, cientes da necessidade de registros para refletirem acerca de sua ação educativa, e até mesmo para elaborarem seus relatórios individuais ou grupais, têm usado o diário de bordo como instrumento pedagógico, das mais diversas maneiras.

Diário de bordo é uma expressão originalmente usada nas navegações portuguesas, um registro das condições de viagem feito pelos pilotos das naus e caravelas, uma memória da viagem, com suas imprecisões, descobertas, condições atmosféricas e marítimas. Creio que, no século XXI, o diário de bordo possa ser o registro de aventuras pedagógicas vivenciadas no coletivo de uma sala de aula, de uma escola, de uma comunidade de aprendizagem, com seus navegantes, por vezes em mares revoltos; mas também o registro da viagem do educador a bordo de si mesmo.

Esse diário, segundo Barbier (2007), pode conter referências a impressões, acontecimentos, observações, ações, reflexões, desejos, leituras, escuta do outro, lembranças, emoções, etc. É, portanto, uma escrita mais livre que assume inicialmente a forma de um “diário-rascunho” e se torna progressivamente mais elaborado, até se tornar publicável.

Diante de tantas demandas formais nos contextos educativos, provavelmente algumas professoras sentirão falta (ou, talvez, algum estranhamento) diante da possibilidade de um registro mais livre, sem amarras, marcado por subjetividades que dialogam com objetividades, sem preocupação com o olhar do outro; mas que, por outro lado, possa ser útil para a escrita de seus relatórios, ao final do bimestre ou semestre letivo.

Observo que tais registros, se realizados no dia a dia da prática profissional dos educadores, podem contribuir largamente para a sua formação como professores reflexivos, pesquisadores da sua prática, mais conscientes e críticos com relação aos caminhos pedagógicos trilhados.  

Tal trabalho de registro reflexivo pode ser realizado quando e onde a educadora se sentir mais disponível e confortável para escrever. Sua extensão não me parece relevante, uma vez que pequenos apontamentos significativos podem ser mais importantes do que uma página escrita para cumprir um ritual avaliativo. Talvez essa escrita breve possa se ampliar progressivamente, na medida em que a educadora vai compreendendo o valor de uma escrita para si própria, ao mesmo tempo pessoal e profissional, ao assumir a autoria de linhas que aproximam a profissionalidade da sua pessoalidade, mesclando cognições e emoções, dando sentido ao vivido no cotidiano com as crianças.

Mas, afinal, o que é, ou pode ser, a escrita de um diário de bordo? Escrever um diário de bordo implica em revisitar o vivido. É um espaço de expressão em que a professora se distancia um pouco, temporal e espacialmente, da sua experiência (ainda que esse distanciamento seja o final do dia, mas já um pouco longe do calor da ação). Permite uma reaproximação do que foi vivido na sala de aula ou fora dela, uma releitura dos acontecimentos, intenções e ações desenvolvidas. Nesse sentido, o educador pode rever-se, rever as crianças, revisitar episódios críticos, situações que demandam sua atenção; refletir e problematizar o processo pedagógico vivenciado com o grupo, revisitar singularidades das crianças; aprimorar os projetos pedagógicos, os roteiros de estudo.

O que observei na minha turma? O que experimentamos como grupo? Será que escutei meus alunos? O que eles sugeriram? Deixei-me provocar por suas curiosidades? O que penso dos temas que emergiram, e como eles “conversam” com os conteúdos programáticos? Os projetos desenvolvidos, individual e coletivamente, resultaram de fato de uma escuta sensível das necessidades e dos interesses expressos pelas crianças?

Tenho clareza da minha intencionalidade pedagógica? O que aconteceu inesperadamente e mobilizou a atenção na sala de aula ou fora dela? Como me senti? Como reagi? Como as crianças se envolveram com uma atividade proposta? Como um conflito foi desencadeado e mediado? De que elementos necessito para lidar com determinado desafio pedagógico? Com quem posso conversar? Existe um suporte teórico para subsidiar minha ação educativa?

No decorrer do dia são tantas as micro decisões que um professor precisa tomar, quase sem tempo para pensar, que o diário de bordo representa talvez a grande possibilidade de   estar a sós consigo mesmo para pensar o processo educativo e nele se rever. Como afirma Perrenoud (1993), os professores oscilam entre a rotina e a improvisação, considerando esta última como um gesto educativo que depende da sua bagagem, assim como de suas características pessoais e subjetivas. Essa dimensão, assim como a bagagem de conhecimentos do educador, poderá ser largamente trabalhada a partir do diário de bordo.

O processo de ressignificação do vivido, a criação e recriação de sentidos subjetivos (GONZÁLEZ REY, 2003) para o cotidiano pedagógico; a reflexão sobre o que escapa, mas de repente se configura como relevante na memória do professor; a compreensão de que é necessária uma escuta mais profunda da criança ou da família, ou uma conversa que não deve mais ser adiada com a coordenação pedagógica; a súbita compreensão daquela “pobreza rica” das crianças de camadas desfavorecidas, como reconhecia Ivonilde Morrone, extraordinária professora da escola pública nos primórdios de Brasília (RODRIGUES, 2018); a compreensão do valor da brincadeira livre; o emergir de novas ideias e estratégias pedagógicas, mais criativas e lúdicas; estas são, enfim, algumas das dimensões que a escrita regular de um diário de bordo poderá certamente fertilizar.

Portanto, no diário de bordo cabem não apenas memórias do vivido, mas reflexões e indagações sobre esse vivido, pensado e sentido, que poderão ser melhor destrinchados. Creio, também, que a dimensão simbólico-emocional dos processos educativos possa ser reconhecida, assim como privilegiada, no diário de bordo.

Talvez o professor ou a professora se tornem mais conscientes das questões centrais da sua viagem pedagógica:  das inquietações e tempestades no mar da sua sala de aula; de correntes profundas que impedem a navegação calma; da necessidade de encontrar o curso a seguir; de mapas e bússolas de que precisa para desempenhar seu papel como educadora ou educador. Talvez o diário de bordo possa apontar a necessidade de um olhar mais fino, de uma sistematização mais cuidadosa, de uma escuta mais sensível, de uma problematização a ser compartilhada com colegas que vivem, em seu cotidiano, desafios e problemáticas com navegações semelhantes.

Afinal, como Fernando Pessoa poetou (e vou pedir emprestada a profundidade do título de seu poema), talvez um diário de bordo seja necessário porque “Navegar é preciso”, mas “Navegar não é preciso”.    

REFERÊNCIAS

BARBIER, René. A pesquisa-ação. São Paulo: Liber Livros, 2007.

GONZÁLEZ REY, Fernando. Sujeito e Subjetividade. São Paulo: Thomson Editora, 2003.

PERRENOUD, Philippe. Práticas pedagógicas, profissão docente e formação: perspectivas sociológicas. Lisboa: Dom Quixote, 1993.

RODRIGUES, Maria Alexandra Militão. Como Brasília aprendeu a ler e a escrever em seus primórdios: o protagonismo da professora Ivonilde Morrone. In PEREIRA, E.W.; COUTINHO, Laura.M.; RODRIGUES, M.A.M. (Orgs.). Anísio Teixeira e seu legado à educação do DF: história e memória. Brasília: Editora da Universidade de Brasília (EdUnB), 2018.

Festa da Cultura Popular

Festa da Cultura Popular numa associação
Texto: educadora Adriana Pereira

Desde que me tornei educadora na Vivendo e Aprendendo, sou apaixonada pelos espaços de diálogo e construção coletiva, vejo que estas características permeiam a prática pedagógica com as crianças e a sua culminância é na voz ativa das crianças e noção de coletividade delas. Um dos eventos que mais me mobiliza como educadora, é a Festa da Cultura Popular, que acontece todo mês de Agosto, uma forma de celebrar e explorar aspectos culturais do nosso país, definitivamente o que eu gosto nesse evento é a sua dinâmica de organização. Nos reunimos educadores/as e famílias, conversamos sobre os objetivos da festa, depois levantamos diversos temas que acreditamos ser relevantes como um possível fio condutor do trabalho pedagógico e celebração cultural com as crianças. Discutimos a relevância cultural, social e histórica dos mesmos, há defesas empolgantes de ideias, muita troca de saberes nesse momento. Quando chegamos ao tema, mediante consenso, começamos a pensar quais abordagens históricas e culturais faremos.

Contação de histórias com a princesa Adriana

Após esse primeiro encontro de escolha do tema, as famílias são novamente convidadas à
construírem com a equipe pedagógica, as reflexões e conhecimentos, que se transformaram em subsídio para as atividades pedagógicas com as crianças. Nesse encontro, são também convidados estudiosos/as sobre o tema. Em 2015, quando celebramos as diversas culturas dos povos Indígenas do Brasil, diversos pais e mães, que são antropólogos/as e educadores/as nessa temática, participaram dessa roda, trouxeram muitos materiais didáticos, foi memorável esse envolvimento. No ano seguinte, a festa foi sobre uma comunidade quilombola, os Kalungas, novamente muita dedicação em pesquisar o tema, aprender sobre a importância dos quilombos frente ao modo de produção escravista e preservação da identidade e da cultura da população afro-brasileira. No ano passado, a festa da cultura, nos convidou a olhar para arte de rua, danças, grafites, pixos, malabaristas e acrobatas dos sinais de trânsito, batalhas de MC’S, Slam, estátuas vivas, skates, parques… A rua com suas multi expressões nunca mais foi vista pelas crianças da mesma maneira, que a veem como um organismo vivo e criador de estéticas próprias.

Minha turma, fez uma atividade, que era entrevistar familiares a amigos/as sobre suas brincadeiras e lembranças mais carinhosas da rua, reconhecendo narrativas e percebendo de forma intergeracional aspectos culturais relevantes para sua visão de mundo. Depois fomos dar um passeio de ônibus para ver alguns grafites pela cidade e muitas outras vivências, as crianças gritavam empolgadas nomes de artistas do grafite da cidade que estavam conhecendo.

Ano passado, decidimos que a Festa da Cultura Popular ao celebrar expressões culturais que não se dão entre muros ou cercas, deveria acontecer na rua. E lá fomos nós, cada um levando um alimento para compartilhar, toalhas de piquenique, skates, bolas e objetos para uma feira de trocas. Numa tarde de sábado ocupamos um espaço público, como mais de 150 crianças, suas famílias e educadores, todos e todas dedicados a essa experiência. Quando chega o recesso do meio do ano, já começo a pensar que na volta, me esperam rodas de conversas e debates memoráveis sobre Cultura Popular, em companhia de toda a comunidade escolar, meu coração se aquece!

Me Chamo Adriana Pereira e educação para mim, tem que ter gente em roda, trocando, socializando e disposta a se implicar no processo.

Contratação de Consultor temporário para o Ensino Fundamental (encerrado)

Caras/os amigas/os,

A Vivendo e Aprendendo abre o processo seletivo para Consultor/a temporário/a para o Ensino Fundamental. O prazo limite para apresentação dos currículos e carta de intenção vai até 15 de agosto de 2018.

Confiram o edital abaixo e pedimos que divulguem e indiquem a potenciais interessados. Aos que participarão da seleção, desejamos sorte.

Edital de consultor(a) pedagógico(a) para o Ensino Fundamental da Vivendo e Aprendendo

Ei! Você está aqui?

Texto por: Letícia (Ciclo 5 matutino.), Lulu (Ciclo 1 vespertino) e Natália (Ciclo 4 matutino).

Nesse momento, consegue sentir as batidas do seu coração? Ouvir a sua respiração? Qual foi a ultima vez que sentiu o chão com os seus pés? Que um pingo de chuva tocou o seu corpo? Corpo? É ele que nos permite brincar, descobrir, conhecer, estudar, trabalhar, se alimentar… Mas será que realmente estamos fazendo isso tudo? Nossa presença está sendo consciente ou estamos agindo mecanicamente?

Atualmente, recebemos informações e estímulos de inúmeras formas, num ciclo vicioso de muitas novidades e poucas reflexões. Prendemo-nos ao passado, planejamos e nos preocupamos com o futuro e muitas vezes não estamos aqui, agora. Essa presença ausente nos desconecta das belezas que existem diante de nós.

As crianças nos fazem viver essa beleza. A cada instante somos convidadas por elas a redescobrir o mundo. Num chamado constante de estarmos aqui, com uma presença integral. Olhar e verdadeiramente enxergar, tocar e conseguir sentir, escutar e inteiramente ouvir.

Somos como uma pipa que já está voando há muito tempo, que já ganhou corda demais e que conhece vários céus. Uma criança é um chamado a voltar. É ela que nos puxa de volta ao início e nos convida a recomeçar esse voo, a viver esse agora e a redescobrir o mundo.

Será que estamos conseguindo ouvir esse chamado das crianças? Será que estamos sensíveis a elas? Uma criança nasce para nos lembrar que o mundo está recomeçando a cada segundo, para convidar os seus familiares a olharem juntos cada grande novidade, para relembrar os seus educadores que nada é previsível, para nos convidar a (re)olhar e revisitar este mundo que, até então, pensávamos conhecer.

Festa Junina 2018

Domingo, 17 de junho, ocorreu a aguardada festa junina da Vivendo e Aprendendo. A festa foi realizada no bucólico espaço da associação que, com seu amplo pátio arborizado, suas casinhas coloridas e a criativa decoração dos professores, se tornou um verdadeiro arraial.

Durante a festa, foram promovidas muitas brincadeiras típicas de festa junina, como a pescaria, a corrida de saco e jogos de arremesso. Mas o auge do evento deu-se com a apresentação do artista Edy Natureza que, em cima de pernas de pau e de fantasia, se transformou em um pica-pau gigante. As crianças foram à loucura, correndo pelo espaço da escola inteiro (umas atrás da ave, outras fugindo dela), com muitos risos e alegria, como em qualquer festa tem de ser.

Por fim, encerramos a festa com uma grande quadrilha, regada a muitas risadas e uma deliciosa fogueira em nosso jardim.

Texto e fotos por Paulo Frederico

 

 

 

O embalo da rede: Quando começa o desenvolvimento da criança?

Texto por: Pablo Martins Carneiro, Diego Barrios e Marianna Mialski

No dia em que se soube, já estava a figurar nas remotas inscrições simbólicas daqueles que ouviram a notícia. Rita está grávida! Grávida, grávida… Ali, naquele momento, repleto do muito antes cultural e do tanto futuro desejoso, iniciou-se o desenvolvimento de uma criança.

A barriga, agora alvo dos olhares, sonhos, medos, projeções, desejos de união e solidão, se tornou linguagem comum a todos. E o estatuto de mãe obrigou Rita e se reinventar como tal. Foi duro, lindo, feio, maravilhoso, incandescente, real, simbólico e imaginário. Havia agora ela-mãe, ele-namorado-pai, mãe-avó, pai-avô, eu-mulher, eles-homens, barriga-bebê, tudo e todos ao mesmo tempo, bordando uma história de dentro para fora daquela barriga.

Sozinha no quarto, em frente ao espelho, ouvindo música, nas conversas com o namorado-pai, nos sermões da mãe-avó, no silêncio-barulhento do pai-avô, na leitura de livros infantis, Rita acolheu em si o quantum do desenvolvimento. E foi exatamente envolvida nessa colcha simbólica que nasceu Luísa. Esperada e falada por todos e todas, com sua história pré-contada.

Luísa existia onde não estava e estava onde não existia. E ali, aquele montinho de fome, sono e reflexos primordiais, foi acolhida pelo Outro primordial, que seguiria nutrindo-a das primeira marcas de humanidade. Rita, de olhos marejados de lágrimas, olhou para Luísa e viu que era recebida por um sorriso. Daquele dia em diante, capturado pela romântica semântica da linguagem de Rita, aquele esticar de músculo se tornou sorriso, sustentado pelo desejo da mãe e o amor da filha.

Assim, dia após dia, muitos assumiram a função de atribuir significado às expressões de Luísa, ao mesmo tempo que pressupunham e lançavam ao futuro seus desejos de desenvolvimento. Luísa, por sua vez, se fundia a uns, se diferenciava de outros e se descobria sujeito. Houve dor, houve presença, houve falta. Houve.

Quando uma criança nasce, ela presentifica um desejo anterior. As expectativas criadas a partir do filho imaginado começam a se tornar palpáveis e reais. A relação de Rita com Luísa foi iniciada nos primórdios de sua própria vida, em brincadeiras com bonecas e outros faz de contas. Tudo o que viveu até o momento do nascimento da sua pequena, carrega de significado as infinitas possibilidades desse encontro, tudo o que a relação pode estabelecer.

Para que uma criança se desenvolva, precisa estar enlaçada pelo desejo, pela suposição de sua capacidade, pelo lançamento de possibilidades de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, necessita de um Outro que reconheça e sustente suas conquistas, numa captura significante que atribui significado a elas. A aprendizagem reconhecida e valorizada pelo grande Outro, se posiciona numa rede significante e pulsional que a impulsiona e sustenta como parte do repertório simbólico da criança. Em contrapartida, o estímulo em direção a qualquer ensinamento por parte dos adultos, se dá pelo anseio de que a criança aprenda, derivado da pressuposição de que é capaz de aprendê-lo.

Na ausência de um Outro primordial que suponha e estimule o desenvolvimento e a constituição de um sujeito, nada encontra lugar para florescer. O desejo do Outro tem seu lugar em viabilizar o desenvolvimento. Para isso, é preciso que o outro esteja. Esteja presente. Esteja envolvido. Esteja disponível.

Em nossa inquietante conversa com a professora Zulema Garcia Yañes, fonoaudióloga, psicomotricista e Diretoria do Centro Lydia Coriat de Porto Alegre, pudemos discutir importantes implicações de tais conceitos psicanalíticos para o campo da Educação e, assim, pensar no delicado lugar do adulto nos processos de desenvolvimento infantil. Uma dessas implicações diz respeito à postura ética do educador diante da relação com a criança. Explicamos melhor.

Assim como a mãe e o pai, ou aqueles e aquelas que assumem tais funções, o educador convida a criança ao mundo, cria expectativas de seu aprendizado, supõe o que ela, enquanto alteridade, pode e deve saber. Por outro lado, desejamos, como educadores e educadora, que as crianças nos acompanhem em nossas viagens, que participem do mundo simbólico que criamos e trazemos para a sala de aula em nossas falas, intervenções, planejamentos e brincadeiras.

Portanto, a postura ética se observa uma vez que o educador acredita na criança, é capaz de fazer essa suposição sobre o desenvolvimento do seu aluno e assume uma postura desejante em relação a esse processo de desenvolvimento. Tal ímpeto atua como um abraço, um colo simbólico em que a criança encontra espaço para sua expressão autêntica.

Para concluir, trazemos uma frase colocada por Zulema que nos inspira a construir uma educação pautada na ética da relação com o outro. Diz ela: Para que uma criança esteja atenta ao mundo, o adulto precisa estar atento a ela. Busquemos estar atentos às nossas crianças, praticando o respeito por sua originalidade e buscando criar as condições para que elas cresçam confiantes de ser quem são.