Postado em 29/01/2017 no Correio Brasiliense – Por Gláucia Chaves

O pequeno agricultor cultiva sua produção respeitando o tempo que o alimento precisa para amadurecer. O escoamento dos produtos é feito de forma muito mais modesta que os grandes planos logísticos adotados por grandes redes de varejo: muitas vezes, as verduras, frutas e legumes são levados às feiras e restaurantes pelos próprios agricultores. Como os alimentos não têm nenhuma química, duram o tempo que têm que durar, ou seja, não aguentam longos períodos de viagem ou muito tempo parados nas prateleiras. Tudo isso dificulta a vida do agricultor familiar, como explica Renê Birochi, um dos coordenadores da Arca do Gosto: “É preciso garantir que sejam construídos canais sustentáveis para que o agricultor familiar consiga estimar quanto vai produzir e quanto disso será vendido”.

O agricultor familiar precisa estimar um preço justo, suficiente para sustentá-lo até a próxima safra. Atualmente, ainda de acordo com Birochi, o que acaba acontecendo é que as grandes redes de varejo abocanham quase todo o mercado de alimentos. Por isso, o projeto exalta a criação de espaços próprios para a venda de orgânicos, em extinção ou não. Mas e as feirinhas orgânicas, que hoje brotam mais que chuchu na cerca? “Hoje em dia, o mercado de orgânicos está em franco crescimento, mas está reproduzindo a mesma lógica de concentração de poder econômico para grandes varejistas”, analisa Renê Birochi. “Continua a mesma relação assimétrica de desequilíbrio em relação ao agricultor familiar. Não adianta ter um produto livre de agrotóxicos, mas que continua remunerando mal o agricultor.”

Nesse sentido, as CSAs (comunidades que sustentam o agricultor) são muito importantes. A ideia delas é estabelecer uma relação de confiança entre os agricultores e os coagricultores, termo usado para definir quem faz parte da iniciativa. Funciona assim: o agricultor apresenta todas as informações sobre seus custos de produção. O valor é dividido em cotas mensais, pagas pelos coagricultores, que passam a ser financiadores daquele agricultor. Em troca, os participantes recebem uma cesta com os itens produzidos. Assim, tudo o que for colhido já estará pago e vendido, descartando a necessidade de atravessadores.

Daniela Ângelo Miranda, 42 anos, é uma das organizadoras da CSA que funciona em uma escola da Asa Norte.

Daniela Ângelo Miranda, 42 anos, é uma das organizadoras da CSA que funciona em uma escola da Asa Norte.

Daniela Ângelo Miranda, 42 anos, é uma das organizadoras da CSA que funciona em uma escola da Asa Norte. A psicóloga revela que a iniciativa conta com mais de 20 coagricultores. Além de ajudar a financiar a produção de alimentos comprovadamente sem agrotóxicos, Daniela acredita que a CSA é uma maneira de sensibilizar as crianças para a questão ambiental. “Fazemos visitas aos locais de produção com as crianças, que têm a oportunidade de ver como é o plantio, colher e entender a sazonalidade dos alimentos”, descreve.

Para participar, é preciso ser indicado por um membro da CSA. O interessado assina um termo de compromisso e recebe uma cesta semanal, com dez a 12 itens, entre folhagens, verduras, legumes e frutas. “O legal é que você começa a consumir alimentos que antes não conhecia”, completa. Daniela diz que começou a se aprofundar no assunto com o objetivo de esclarecer as filhas, de 4 e 8 anos de idade. Informar-se sobre a origem do alimento, o valor do orgânico e entender sobre economia circular e colaborativa foram os passos seguintes. “Na nossa comunidade, além de nos preocuparmos em saber que os agricultores estão bem para fornecer um alimento bom, também ficamos preocupados com as trocas”, comenta. As trocas funcionam entre os membros de maneira simples: se há algo sobrando na sua cesta e faltando na do outro, os participantes fazem o escambo.

A interação entre os coagricultores e agricultores é outra vantagem do processo. Todos se chamam de família. “Esse movimento social colaborativo integra as pessoas. Isso foi o que me encantou desde o começo”, descreve Daniela. “A preocupação começa dentro de casa, mas quando você vê o alcance disso, acha que o seu é muito pouco. Sua vida muda, porque você começa a se alimentar melhor, mas você passa a ver a vida dos seus amigos mudar, dos agricultores e também a do planeta.”

O músico Antoine Espagno, 57 anos, é um dos coagricultores da CSA. O interesse por produção de comida vem de anos, assim como a noção das vantagens dos circuitos curtos de produção e distribuição de alimentos. A taxa de R$ 298,08 também é satisfatória: antes, Antoine gastava cerca de R$ 400 por mês em alimentos orgânicos para ele, a esposa e a filha. “Se for comprar orgânicos no supermercado, você vai pagar mais que o dobro disso”, compara.
O músico Antoine Espagno, 57 anos, é um dos coagricultores da CSA

O músico Antoine Espagno, 57 anos, é um dos coagricultores da CSA

Além da distância física entre agricultores e consumidores, Antoine ressalta que o CSA ajudou a diminuir a distância emocional entre as pessoas. “Conheci os agricultores, fui à casa deles, conheci o processo inteiro”, comenta. Mas é preciso ter em mente que a natureza tem seu próprio tempo: a cesta só vem com o que está na época. Esse detalhe, contudo, não incomoda nem um pouco Antoine. “Tem períodos que não tem tomate, mas sei que eles virão em dois, três meses. Acho que a pessoa tem que se virar para comer bem e o melhor jeito é esse, não tenho dúvidas.”

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